Reservatórios de usos múltiplos


Falta planejamento do uso múltiplo das bacias hidrográficas.

Editorial publicado pelo Comitê Brasileiro de Barragens (CBDB) chama a atenção para a importância do múltiplo uso das águas dos reservatórios e as consequências da falta de planejamento da utilização das bacias hidrográficas com avaliação de impactos ambientais.

A grande estiagem que assolou nosso país em 2014 e ainda cobra suas consequências, trouxe à baila um tema antigo, porém nem sempre considerado na grande maioria dos projetos de nossas barragens, qual seja, USOS MÚLTIPLOS dos RESERVATÓRIOS. As barragens são construídas desde a antiguidade com o intuito de criar um reservatório para a água então ser utilizada, quer para uso de abastecimento urbano ou industrial, energia hidroelétrica, irrigação, controle de cheias, navegação, piscicultura, lazer e diversos outros usos que a engenhosidade humana possa criar. Na maioria das vezes o projeto original é concebido para uma única utilização e com o surgimento de necessidades adicionais, ocorrem adaptações, muitas vezes conflituosas.

Poucos são os empreendimentos brasileiros que foram projetados como multiusos, como, por exemplo, Pedra do Cavalo, no rio Paraguaçu, na Bahia, onde além do controle de cheias nas cidades históricas de Cachoeira e São Felix, abastece a população de Salvador, tem área agrícola irrigada e geração de energia, além de lazer.




Ao contrário, Guarapiranga, no rio de mesmo nome, afluente da margem esquerda do rio Pinheiros, hoje dentro da cidade de São Paulo, foi concebida e construída pela antiga Light dentro do conjunto de usinas geradoras de energia hidroelétrica ao redor do polo paulista, que reverte o rio Pinheiros para gerar em Cubatão, junto  ao mar, Serra do  Mar abaixo.

Com o término da Light e advento da Eletropaulo, Guarapiranga passou para a SABESP, para prover água para o consumo humano da região metropolitana da Capital paulista, com regra operativa diversa daquela original de geração de hidroeletricidade.  Em janeiro de 1976, quando o período chuvoso foi bastante intenso, com o reservatório cheio quase ocorreu o galgamento da barragem, construída como aterro hidráulico.

Posteriormente a este episódio foram tomadas medidas reparadoras tanto físicas, como operacionais. Mudanças de uso requerem atualizações operativas e de segurança, hoje regra e preceito legal.

A recente determinação do governo federal de combater efeitos ambientais com o reservatório a fio d’água, com toda certeza, além de prejudicar a reserva energética de origem hidráulica do país, também pode comprometer mudanças de uso dos reservatórios, já que o ambiente social e econômico é mutável e água sempre será essencial.

O uso múltiplo de reservatórios torna-se ainda mais estratégico em épocas de crises hídricas. E tem gerado iniciativas como a da Câmara dos Deputados em 2021, com foco na recuperação de reservatórios como o do Lago de Furnas.




O entorno do lago abrange 34 cidades mineiras que foram bastante afetadas nos últimos anos com a redução do volume do reservatório para apenas 28,6% da sua capacidade (dados do ONS, Operador Nacional do Sistema Elétrico). A queda comprometeu o uso das águas para outras atividades, além da geração de energia elétrica, como abastecimento humano, turismo, irrigação e pesca.

 

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